Como todo o caminho espiritual o Judaísmo também desenvolveu práticas que visam o aprimoramento humano de quem o pratica. Por razões históricas e culturais as práticas espirituais da nossa tradição estão associadas com vários detalhes afetivos, simbólicos e culturais de nosso povo. Algumas dessas práticas espirituais são feitas dentro do ciclo de vida judaico, sendo feitas apenas uma vez na vida de um indivíduo, porém muitas e muitas vezes na vida coletiva da coletividade. A mesma coisa pode ser dita com relação às práticas do ciclo anual, que são repetidas tanto na vida individual como também na vida da comunidade. Mas é justamente porque o Judaísmo é um caminho espiritual que suas principais práticas prescritas para o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos são feitas numa base diária. São elas: a oração e o estudo.

A princípio pode parecer que a oração e o estudo são coisas absolutamente diferentes, mas de muitas formas estudo e oração se entrelaçam. Em primeiro lugar porque tanto um como outro são diferentes formas de meditação. O estudo talvez de uma maneira menos óbvio que a oração, especialmente o estudo diário, tem sido praticado tradicionalmente como um estudo meditativo, como uma forma de focalizar nossa atenção de modo profundo em alguma aspecto de nossa existência como seres humanos e como seres judeus. Ao estudar a Torah, da mesma forma que ao recitar orações, estamos mais próximos de Deus. De algum modo isso já era sabido pelos rabinos desde os tempos talmúdicos e medievais, pois foram eles que colocaram partes da bíblia e do Talmude para serem recitadas como orações no Sidur. O exemplo mais famoso disso é a recitação diária do Shma Israel, que é ao mesmo tempo uma oração e uma recitação de um trecho da Torah, ou seja, um estudo da mesma. Nos Sidurim tradicionais, de manhã cedo após as bênçãos matinais, há seções de estudo de trechos do Talmude, que estão lá como recitação litúrgica e ao mesmo tempo como um estudo. Essa primeira forma de estudo meditativo baseado na recitação e conseqüente memorização de um texto é chamada em hebraico de “Shaná”.

 

 

 

 

 

 

Na recitação do Shmá ela aparece na frase “Veshinantam Levanecha” e “e ensinarás através do estudo repetitivo ao teu filho” Essa mesma raiz aparece na palavra Mishnah, que originalmente se refere ao fato de os parágrafos (Mishnaiot) eram repetidos até a memorização. Em aramaico o verbo Shaná se diz Taná e daí a palavra Tanaim usada para se referir aos primeiro rabinos. O estudo nessa sua dimensão recitativa é claramente uma forma de meditação.

 

Outra dimensão do estudo segundo a tradição judaica está ligada à noção de limud, isto é o estudo racional da Torah. Enquanto limud o estudo da Torah se dá através da argumentação e do debate. Diríamos em linguagem moderna que esta é a prática do estudo enquanto análise e pesquisa crítica das fontes judaicas e das várias vozes que através das gerações interpretam a tradição. O objetivo aqui não é tanto o de encontrar a resposta certa, mas buscar fazer perguntas relevantes.

 


O Judaísmo é o caminho espiritual do povo judeu.

Reaprender a fazer perguntas é uma necessidade vital dos homens e mulheres modernos tão afastados da experiência existencial profunda.

Através do estudo da Torah nós não apenas podemos conhecer melhor a tradição, mas também contribuímos para seu florescimento e crescimento. A tradição não é algo estático Mas o que é tradição? E qual sua relação com a modernidade? A tradição poderia ser definida como memória da experiência coletiva. Memória essa que é transmitida de muitas formas de uma geração para outra, na vivência comunitária. Essa transmissão se dá através de muitos suportes diferentes, que expressam o consciente e o inconsciente coletivos, como por exemplo, nas lendas, nos ritos, na religiosidade, na literatura, na culinária, na música, nas artes e técnicas, nos costumes, ou seja, em tudo aquilo que é conhecido como cultura. O estudo da Torah não é somente a contemplação de algo abstrato, mas também um profundo modo de abordar a vida concreta que cada um de nós vive aqui e agora neste mundo.

 

Rabino Alexandre Leone

Como o estudo da Torah toca em todas as dimensões da vida, as perguntas tocam a essência de nossa existência. Conforme o rabino Abraham J. Heschel z”l, reaprender a fazer perguntas é uma necessidade vital dos homens e mulheres modernos tão afastados da experiência existencial profunda. A dimensão do estudo enquanto limud é também uma prática espiritual e uma caminho para uma maior consciência da meta última de nossas existências.

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